A MORTE DE MARIELLE E O RENASCIMENTO DE TODOS NÓS

Jade Tresca


Foi numa quinta-feira pela manhã que eu recebi uma mensagem de uma amiga: “Você ficou sabendo da morte da Marielle Franco?”. Na hora, pelo nome, não conseguia me lembrar quem era essa mulher, pois a conhecia apenas por foto. 

Marielle era mulher, negra, mãe e cria da favela da Maré. Se formou em ciências sociais e fez seu mestrado em administração pública. Foi defensora dos Direitos Humanos e vereadora do Rio.

Não me sinto orgulhosa em dizer que eu não conhecia muito o trabalho e a história de Marielle. Mas naquele momento, ao me deparar com sua brutal execução e ao entrar em contato com sua luta, posso dizer que a bala que a feriu me feriu por dentro também como se eu fosse um ente querido. Mas por que senti em meu peito tamanha dor? Talvez por ser uma mulher simples e batalhadora que lutou até a morte? Por ter sido uma mulher que correu atrás dos seus sonhos? Sim, mas principalmente por ser mulher. Mulher como eu, como você que me lê. Mulher, mesmo que você, leitor, não seja. Senti sua dor. Senti uma imensa identificação com essa figura que nunca tive a oportunidade de conhecer pessoalmente na vida. 

Marielle lutou pelas mulheres. Em um vídeo em que divulga o seu trabalho, ela diz: “Para nós, mulheres, luta é cotidiano. Nós sentimos todos os dias os seus reflexos. Quando levamos nossos filhos para a escola e não tem aula. Quando temos que trabalhar e não tem vaga nas creches. Sentimos quando somos desrespeitadas nos transportes. Desvalorizadas no trabalho. Assediadas nas ruas. Violentadas em casa. E entre os becos e vielas da favela, sobreviver é a nossa maior resistência. Agora chegou a nossa vez. Vamos ocupar o nosso lugar na cidade e na política. Ter o que nos é de direito. Nossa voz, muitas vezes silenciada, terá de ser ouvida. Agora é para fazer valer. Sou força, porque nós somos. Sigo, porque seguiremos todas juntas. Eu sou Marielle Franco, mulher, negra, mãe, da favela. Eu sou porque nós somos.”

Quiseram apagá-la da história, mas até em sua morte Marielle foi política e transformadora. Seu trabalho e jornada me fez refletir sobre os meus atos, sobre quem sou, a não ser tão egoísta e vazia quando existe tantas outras coisas realmente importantes acontecendo. A não dar tanta importância para coisas passageiras e banais. Será que eu devo me preocupar tanto com a aparência, se eu emagreci, se eu engordei? se existem mulheres que lutam todos os dias pelas mulheres negras, mulheres de todas as cores e corpos, por minorias, para desconstruir os padrões que nos é imposto todos os dias, capazes de pagar por isso com a própria vida, Será?. O que eu faço pelas mulheres e pelas pessoas, se eu alimento competições e padrões inalcançáveis em mim todos os dias?. O que eu faço pelos meus ideais? O que eu faço para ajudar quem precisa?.

A intolerância cresceu ainda mais com as redes sociais. Temos internet, televisão, facebook, entre tantos outros, mas a desinformação é geral. Quando entrei nos comentários de um postagem sobre ela, me deparei com coisas do tipo: “Bem feito, ninguém mandou defender bandido”. São tempos difíceis. Tamanhas foram as acusações e calúnias sobre ela, que foi preciso divulgar a verdade sobre Marielle Franco e pedir para as pessoas denunciarem.

O estado de ser “não-pensante” nos seduz todos os dias, e , até casos de execução e intolerância não comovem mais ninguém, não fazem ninguém parar para pensar nas suas atitudes e no seu papel político. 

Nós precisamos de mais Marielles para nos inspirar. Marielle morreu, mas com sua morte houve o renascimento de todos nós. Até em seu último suspiro, sua voz reverberou pelas ruas, pelas multidões, pelas câmaras e pelos muros da cidade. Obrigada, Marielle. Pode ter certeza que sua vida não foi em vão.

Tiago Lima
A gente cai
Fica no chão
Se arrasta 
Enfrenta a guerra
Sangra pela batalha

Entre contradições 
E violência
A gente vive a demência
De quem devia ser lucidez
Entre sonhos e promessas
Quem vence é burgues
O pobre só tenta
Enquanto a chapa esquenta
O nego morre

A gente fica dentro da briga
Matando um leão por dia
Enquanto convive com as armas
Passa a vida fugindo das balas
Assiste em silêncio a desgraça
Enquanto vive a própria tribulação

Do alto do querer
A gente não se dobra
Escala degraus
Se reafirma gente
Usando o rancor 
De quem nos faz mal.

“Eu sou, porque nós somos.”
Marielle Franco (1979-2018)


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