19.8.16

(ANTE)ONTEM


Ontem mesmo eu acordei fora do meu horário habitual, dobrei as cobertas e arrumei a cama, escovei os dentes e eventualmente me olhei no espelho, algo estava fora do lugar. Cantei em voz alta uma música de superação que tinha poderes extraordinariamente mágicos sobre mim, mas ainda assim preferi somente não procurar o que havia se perdido em mim, ou o que somente havia se perdido de mim.

O dia era quente e a casa muito gelada, não conseguia encontrar qualquer ponto confortável, e justamente ontem não havia apetite ou vontade de fumar que pudessem de alguma forma atender ao meu pedido de reorganização mal realizado pelo meu reflexo do espelho.

Eu havia decido anteontem a excluir algumas redes sociais, precisava de um certo silêncio físico e psíquico e de uma distante razoável das minhas imperfeições não suficientes para aqueles que haviam me isolado. Não fiz questão de deixar qualquer aviso prévio ou de dar um singelo "até logo", simplesmente peguei o que a mim pertencia, que até anteontem não era nada, e fui atras de mim para tentar me entender.

A transição de anteontem para ontem já não poderia ter sido pior e minha mente gritante estava inquieta pelo silencio da minha boca e pela inédita imprecisão das minhas palavras, eu estava mergulhado num silencio físico. Na minha remota, e até ontem, atual embriaguez de impotência, eu simplesmente existi e resisti calado.

Ainda ontem, eu me sentei com o papel e lápis em punhos e compus esse breve texto na expectativa de não me deixar em minhas próprias mãos. Ainda ontem, eu me sentei e relaxei e compus essas palavras para conseguir desfragmentar quem fui anteontem.