QUANDO GAROTOS PRETOS SE AMAM

Por Tiago Lima - 1.8.23


"[...] Além disso, naqueles dias de reflexão em que estavam separados, você aceitou que a vida a dois não era fácil mesmo. Que, enfim, era preciso crescer. Ser maduro. Mas você esta longe de se tornar maduro. Quando você voltou, após a primeira briga, minha mãe pensou em ter um filho. Como uma espécie de segurança contra a solidão. Uma armadilha que passou a fazer casa em seu peito... (TENÓRIO, 2020)."

Aceitação é uma palavra tão suscetível a interpretação ambivalente. Me vi fazendo uso do aceitar em inúmeros momentos. Eu aceitei permanecer, aceitei ouvir, aceitei a perdoar, aceitei amar, mas jamais estive verdadeiramente interessado em me aceitar. A aceitação que conheci sempre esteve atrelada ao desconforto, sendo permeada pelas minhas tentativas constantes de ser absorvido em algum meio. Ser aceito é algo que está inerente ao fato de sermos humanos. Tenho a plena certeza de que nascemos para viver em pares, para conviver em grupos e para encontrarmos nossos iguais. A certeza que tenho sobre a aceitação sempre se apresenta para além daquilo que eu também deveria aceitar em mim. Parte do amadurecimento de uma pessoa é alterar o foco da sua existência, tornando possível caber em si, sendo deixado para o passado as tratativas de preenchimento de espaços. 

A aceitação, pelo menos no meu caso, é uma palavra que jamais conseguiu se desvencilhar do amor. Quando a gente é aceito, a gente também começa a ser amado. Vejo meus cabelos brancos - precoces para a minha idade - e sinto vontade de respeitá-los. Olho para o meu acervo de textos e sinto vontade de simplesmente respeitá-los. Pulei uma etapa importante sobre a aceitação e sua condição íntima com o amor: a autoaceitação. Muitas vezes, naqueles lapsos de maturidade, me orgulhei do que sou, fazendo questão de encher meu peito de satisfação e contentamento. Entretanto, não me aceitei por completo, pois aceitei aquilo que era expelido de mim e era aceito do lado de fora. O amor deveria ser incondicional. Mas o amar parece sempre estar condicionado a algo, ao interesse, ao fato de que os pares precisam apresentar similaridade. Nos meios em que meu corpo jamais fora aceito, a conjunção da obra que sou teve inúmeras potencialidades aproveitadas, assim como tantas outras invalidadas. O amor é questionável e a aceitação sujeita a manipulação - não posso dizer o contrário nesse parágrafo.

"[...] Um amor tão caro assim, não dá pra mendigar... (DALASAM, 2022).

Ao decorrer dos anos tive que inventar processos de aceitação e desenvolver métodos de naturalizar os questionamentos sobre o meu autoaceitar. Não entendo plenamente sobre o valor do meu próprio amor, por isso invisto em compreender o meu amadurecer. Aceitei que ainda preciso de ferramentas e outras tantas coisas para que eu permaneça cabendo em mim, escrevendo amores sobre as coisas que nascem de mim, descrevendo as habilidades que tenho diante do viver e da pura e simples habilidade em inventar maneiras de renascer de mim. Hoje, depois de um singelo amadurecer, também sei que não preciso aceitar a proposta de caber. Eu sei sobre o amor e entendo sobre a minha permanência no amar.

"[...] O que sei sobre amor eu
Inventei, inventei um jeito para me amar
Quando alguém se sente amado por mim
Eu penso que deu certo o que precisei inventar
Nunca foi, nem nunca será semelhante a nada
Quando garotos negros amam, quando garotos pretos se amam
Quase sempre se inventou um jeito
Me percebi exceção cada vez que fui amado
Foi vivendo que constatei, o que sei sobre amor eu inventei
É inegável quando verte o amor em mim
A cada vez que me fiz amável
E tantas outras que me refiz amável
Só eu poderia constatar: O que eu sei sobre o amor eu inventei
(DALASAM, 2020)."

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DALASAM, Rico. Guia de um Amor Cego. EP: Fim das Tentativas. Disponível: Spotify. 2022.

TENÓRIO, Jeferson. O avesso da pele. 1. ed. São Paulo: Companhia Das Letras, 2020. 189 p. ISBN 978-85-359-3339-0.

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