RAIVA E REATIVIDADE

Por Tiago Lima - 18.8.23


Já tive que criar tanto filtro para não responder ao ódio e não criar vias de consolidação para o rancor. Nunca soube ao certo nomear aquilo - ou aqueles - que me faziam sentir bastante raiva, tanto que demorei alguns longos anos para usar a palavra, parar criar a frase: eu tenho raiva. E tenho raiva com todos os motivos que são exclusivamente meus e que não cabem serem descritos para serem validados. Tenho raiva por saber que a raiva também é válida, também pode ser nomeada. Tenho raiva sem agredir, sem devolver, sem ferir. Tenho raiva daquilo que está aprisionado em mim e que perdeu o direito de responder ao meio, de reagir ao meio.

"Meu filho, ninguém está mais no mesmo lugar, nem à frente, nem atrás
Das coisas que o tempo fez, nem das coisas que o tempo desfaz
Mágoas de travamento, raivas inesperadas, quem sabe o que sessa os vendavais, desvenda e inventa outros finais!
Djavan chama paixão de cela, trevas loucas de um samurai
Meu filho, ser encontrado é o pior na guerra, mas se encontrar é melhor na paz! (DALASAM, 2021)"


Reatividade é a palavra que sempre evoco para conceituar os lugares que ocupo enquanto ser humano. Trabalho de anos em análise própria, em autodescobertas, em desafios solucionados e em lições de casa realizadas depois de cada nova lição ensinada. Reatividade também é a palavra que uso para resguardar o meu direito de resposta - e o direito de responder é simplesmente o direito de reagir. Reagir verbalmente, reagir fisicamente, reagir momentaneamente ou reagir a longo prazo? Questionamentos que surgem após a reação, pois jamais fui o cérebro computadorizado com uma programação definida para selecionar instantaneamente as reações que entrego/uei ao meio. Reatividade é a palavra que escolho para conceituar a humanidade que reside em mim e potencialmente reside em todes que estão ao meu redor. Ser humanidade e reatividade são duas coisas indissociáveis. 

Talvez o caminho para o reagir seja o aprender, mas isso também me soa como um esforço unilateral de tentativas constantes de sobreviver em locais que são naturalmente reativos ao que sou. Até agora não ponderamos sobre a reatividade em caráter positivo ou negativo. Não consigo usar os dois polos mencionados anteriormente por acreditar que reagir é o sintoma de vida que carrego comigo diariamente. Nesse trecho do texto preciso conceituar novamente quem sou: periférico, pobre, preto, assexual e um profissional da saúde. Tenho que descrever os marcadores que tangem a minha existência para ceifar as possibilidades tendenciosas de manipularem minhas palavras e transformarem a reatividade em uma arma de batalha sem critérios, sem nuances, sem realmente pertencer ao que de fato importa: a humanidade.

Reagir pode ou não ser uma escolha, mas é necessária muita força para escolher. Força é outro conceito bem subjetivo para mencionarmos, pois cada um vive a força que conhece, manipula a força que aprendeu, sobrevive da força que se alimenta diariamente e sabe onde colocar a força para escolher o que fazer a partir de determinado local. A gente precisa entender sobre nós e delimitar aquilo que tomaremos como valores. Precisamos ter repertório para entender que a raiva também está devidamente validada como uma emoção. Respeitar a humanidade para que a nossa a raiva se transforme, crie vida e se dissolva.

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DALASAM, Rico. Outros finais. Álbum: Dolores Dala Guardião do Alívio. Disponível: Spotify. 2021. 

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