ME DESPI

Eu não poderia esperar que sentiria vontade de me despir de todos os rancores e todos os amores. Vigiei bastante e fiquei assiduamente atento ao momento de gritar que não quero mais vestir esses mesmos trajes. Respiro muito melhor agora que vejo tudo calmamente e sem filtros pré-estabelecidos.

Respiro fundo e com alma a leve, pois consegui colocar para fora de mim toda a espécie de sentimentos contrários, todo tipo de sentimento não correspondido e toda possível entrega que não fora reciproca. Esbravejei aos céus que decidi rasgar as minhas vestimentas antigas para conseguir evitar a minha queda naquele poço profundo de solidão. De tudo que pude aproveitar, decidi recuperar em mim a minha própria força. De tudo que eu poderia querer, decidi permitir que meu amor voltasse a me preencher. Estou fora das sombras com o meu peito rasgado e meu desejo de querer a vida mais do que nunca engajado.

Aqui, vivendo esse meu estado de entrega, decidi querer valorizar a minha vida e deixar cada sentimento no agora. Decidi deixar cada momento dessa minha história exatamente na linha do tempo da minha história. Cansei de remoer e de reviver aquilo que deveria estar no passado. Não quero mais ser revirado por tantos desejos passados e não quero mais ter que morrer por tudo aquilo que já passou. Vou me cuidar para o amanhã, vou me preparar parar o que tem por vir e vou guardar a minha razão de viver.

Não vou conseguir me preencher se não aprender a me esvaziar daquilo que já passou. Jamais conseguirei viver bem se não aprender a me aceitar como um verdadeiro pecador. Não conseguirei me recompor se desaprender a habilidade de guardar apenas aquilo que foi bom.

Parei tudo que estava acontecendo dentro de mim, caí de joelhos e me despi de todas as minhas roupas. Por estar cansado de morrer numa sequencia louca de vezes é que decidi me esvaziar para, quem sabe talvez, me encher de novo.