6.9.16

POETA


A horta permaneceu seca e quase que perdida em meio a poeira, a natureza carecia da chuva para voltar a reluzir a vida. Enquanto que dentro de mim existia uma chuva ácida de medo e instabilidade, eu assistia a vida se desbotar em meio a poeira. Estou perdido dentro do meu próprio tempo instável e fora da minha jamais estável instabilidade. Se eu pudesse ao menos por um segundo reaver minha alegria, não estaria afogando em arrependimentos causados por erros involuntários. A minha propensão em morrer dentro dessa enchente que acontece dentro de mim é assustadora até mesmo para quem já morreu afogado por ela outras vezes.

Se eu pudesse ser diagnosticado com qualquer problema, eu mesmo gostaria de dizer qual problema fora diagnosticado. Eu seria internado feito um louco, um pirado, um caso perdido e já irreversível. Eu seria diagnosticado com o mal do poeta. Seria diagnosticado com poesia crônica. Por isso que me afoguei em mim diversas outras vezes. Por isso cometi loucuras e insanidades. Fui por vezes leviano e por inúmeras outras vezes insano. Se eu de fato fosse diagnosticado com algum transtorno psicossomático, seria impedido de poetizar, de viver e de respirar, de sorrir e de chorar. Se eu fosse impedido não poderia mais estar vivo. Se eu fosse desvencilhado da poesia, com certeza, me afogaria nas angustias dos outros, nos sonhos dos outros e nas amarguras alheias.

Não me é producente deixar minhas palavras ocultas, guardadas, dentro de mim. Se minha loucura é louca demais e minhas analogias não fazem sentido, só peço para que me deixem vivo sem rimas e sem lógica, sem coerência e, se necessário, mergulhado em reticencias. Não fiz mal a humanidade todas as vezes que morri perdido dentro da minha própria tempestade. Jamais machuquei intencionalmente alguém todas as vezes que a minha enchente particular destruiu aquilo que demorei para moldar. Por favor, que eu não seja impedido de ser eu.